Quando saí do elevador, no quinto andar
do edifício do Museu do Oriente, a Catarina Furtado seguia em
paralelo comigo na direcção da outra porta do Salão Macau. Não
passou desapercebida pelo canto do meu olho: uma
mulher bonita, num vestido do Nuno Baltazar, dum marcante
cor-de-rosa. Gritei: “Catarina!”... Não, não foi isso que aconteceu; não cruzamos olhares e eu deixei os cumprimentos para mais
tarde; só depois dela prometer não me morder: “Anda cá, que eu não mordo!” Seguido de: “Preciso dum café!”
No dia 15 de Outubro de 2013, realizou-se
a segunda Conferência da Corações com Coroa, num espaço mais
pequeno que a primeira, numa sala com janelas sobre a Doca de
Alcântara. As cadeiras foram quase insuficientes para as pessoas
que, desde as 14:30, quiseram assistir e participar no debate sobre
“Como se Esconde a Desigualdade em Portugal”.
Com as palavras do anfitrião Carlos
Monjardino, o Presidente da Fundação Oriente, a conferência teve o
seu inicio: “Uma longa viagem começa com um pequeno passo”
(proverbio chinês). Os passos seguros que a Catarina contou na
descrição que fez da actividade da associação no seu primeiro
ano. A viagem longa na direcção da igualdade de género e da promoção
da mulher. Mais certo do que eu recontar o que ela disse, é visitar
o renovado
site da CCC; mas destaco o visível contentamento da Catarina com o
anuncio da atribuição de duas bolsas de estudo, a duas meninas, no
presente ano lectivo.
Sempre apoiada pelos voluntários da
CCC (a quem agradeceu mais que uma vez) coube à Catarina a condução
de toda a conferência. Às 15 horas sentaram-se na mesa os criadores
para debater “A desigualdade na igualdade”. A Catarina Ricci,
realizadora, é autora do documentário “
Women on Women” (um
projecto em curso do qual a Catarina Furado é embaixadora) sobre
outras mulheres realizadoras que usam o cinema como instrumento para
a mudança. Central na sua apresentação foi a sua estória com a
realizadora Turca
Handan
Ipekçi que
abordou os “crimes de honra” no seu país (no tempo em que
escrevo isto ainda não sei o que são crimes de honra; a Ricci
recomendou que pesquisássemos, e eu recomendo-vos o mesmo.) Contou
as suas dificuldades em fazer-se respeitar por uma equipa de filmagem
turca, maioritariamente masculina.
Seguiu,
no uso da palavra, a escritora Patrícia Reis. O seu último livro é
uma biografia da Simone de Oliveira. Peço emprestadas as frases
que, mais tarde, Joaquim Furtado disse; a Simone foi mulher num tempo em que precisava de “autorização do país
para sair do marido; e autorização do marido para sair do país.”
O papel da mulher, o que mudou e o que é esperado dela, pareceu-me
ser um assunto transversal ao debate. Elas
conquistaram
muito, eles
mudaram pouco.
Foi nisso
que o humorista Nuno Markl pegou; falando
do seu quotidiano ao lado da companheira Ana Galvão. A mulher, que
está cada vez mais participativa no mercado de trabalho, mantém e
não quer
abandonar o seu lado mais afectivo, familiar e doméstico. Exige-se
que o homem assuma iguais funções no lar. Quando a Ana grita do
topo das escadas: “Nuno, ajuda-me a deitar o nosso filho!” - ele,
sentado em frente ao computador, responde, aflito com a imposição
duma dupla tarefa: “Não posso! Estou a escrever sobre igualdade de
género!”
Foi,
sem duvida, a mesa mais bem disposta e interessante do dia. Seguiu-se
a palavra da Academia, dos investigadores e da aparente certeza dos
números; com o objectivo de tornar claro o obscuro, de descobrir a
desigualdade de género no mercado de trabalho. Mas os números não
parecem trazer nada de surpreendente e de novo: as mulheres
conseguem graus mais elevados de formação mas não chegam aos
cargos de chefia; são elas que secundarizam a carreira quando têm
filhos; são elas que mais recorrem ao trabalho a tempo parcial; mas,
no presente momento de crise, são os homens que atingem uma taxa
maior de desemprego.
No meu ver, a Professora Sara Falcão Casaca e o investigador Bernardo Soares Coelho não conseguiram transpor o estilo de apresentação académico, com os seus diapositivos de tabelas e gráficos, para um estilo mais apelativo e adequado a um público leigo. Mas, ressalvando que não estavam habituados a tal, agradeceram a oportunidade de expor as suas ideias perante uma plateia diversa.
19
horas; a noite caía sobre Lisboa, e a Catarina Furtado deu o seu
lugar à Ana Magalhães para a condução da primeira entrega do
Prémio Corações Capazes de Construir. A imprensa invadiu a sala e
ocupou
os espaços entre as cadeiras. Após o relampejar dos flashs, a
Catarina ocupou
o primeiro lugar em frente à mesa onde
se sentavam os cinco membros do júri, presidido jornalista Joaquim Furtado, pai da Catarina.
Vale
a pena ler a excelente introdução feita pelo Joaquim Furtado (se
ficar disponível); com uma voz grave de locutor de rádio, que
preencheu a sala, falou do ser jornalista, das suas funções e dos
seus deveres na defesa dos direitos humanos; justificou a atribuição
do prémio.
Antes, todos membros do júri tomaram a palavra. A representante da SONAE/MC Ana Salgado, anunciou que no próximo ano o prémio voltará a ser atribuído. Em 2014 haverá também a categoria “campanha” ao lado da
categoria “jornalismo” (imiscíveis segundo o Joaquim Furtado).
E os prémios foram para...
Duas menções honrosas para o jornal Região de Leiria e para a edição anual da revista Visão Solidária.
(Neste momento a Catarina pulou para o pódio para mostrar uma
curiosidade no troféu: um pin destacável da Corações com Coroa;
que colocou na lapela da premiada.)
Dois segundos lugares: um para a reportagem "Momentos de Mudança" recebido pela jornalista da SIC Cândida Pinto; e outro para a reportagem "Selecção de Esperanças" recebido pela jornalista da RTP Mafalda Gameiro.
A distinção, com o primeiro lugar, foi para a reportagem "Um Dia Vou Ser Português" da autoria da jornalista Susana André. A peça, da série "Grande Reportagem" da SIC, conta a história de três africanos que encontraram abrigo no Centro de Acolhimento para Refugiados na Bobadela.