No dia 11 de Outubro de 2017, assinalou-se mais um Dia Internacional da Rapariga, e o Imã Malam, Vice-presidente do Comité Nacional para o Abandono das Práticas Nefastas para a Saúde da Mulher e da Criança da Guiné-Bissau, disponibilizou-se para responder às questões colocadas por duas raparigas voluntárias da CCC: a Patrícia e a Rita.
A Catarina Furtado fez as introduções. O sorriso do Professor acordou e saudou os presentes em arábico. A Adiato Baldé, jovem guineense, voluntária, e estudante de farmácia em Portugal, que estava encarregada da tradução, esperou que começasse a falar crioulo para conseguir traduzir.
Talvez o primeiro ponto sublinhado foi que o Alcorão estabelece a igualdade entre o homem e a mulher. Especificamente, o capitulo 4 do livro, estabelece preceitos que protegem a mulher. Mais genericamente, o texto sagrado é pelos Direitos Humanos e pela Ecologia. Ocorreu-me que a mudança positiva da condição da mulher sob o Islão, defendida pelo Imã, seria verdade na Península Arábica no tempo do Profeta, mas que não seria sempre verdade noutro tempo ou local.
A Guiné-Bissau, um pais com 1.7 milhões de habitantes, distribuídos por diversas etnias como os Fula, Balanta, ou Mandiga, onde cerca de metade professa o Islão; poderá parecer um pais onde os preceitos tradicionais de cada grupo se sobrepõem à lei do pais. Mas, como referiu o Professor Malam, as leis civis devem sempre valer mais que os ditames religiosos. A Guiné-Bissau não é uma república islâmica, e as diversas comunidades convivem bem com as tradições das outras, celebrando em conjunto os eventos da religião alheia.
Eu, não deixei de torcer o nariz, quando o imã defendeu preceitos que vão ao arrepio de valores europeus, como a lei de talião, ou certas obrigações no casamento. A conversa seguiu, e a Catarina abriu o debate às questões do público presente. Um jovem guineense, com alguma pressa para ir ao teatro, pegou no microfone e, com um dedo a apontar para o céu saudou os presentes. A saudação terá sido a versão em português da feita pelo Professor no inicio (a quem o jovem tratou por mestre). À mãe da jovem Adiato, presente, ele tratou também por mãe; não porque fosse, mas por deferência ou por afinidade familiar. O respeito pelos mais velhos, comum nas sociedades africanas, era evidente. O que disse não entendi completamente, apesar do jovem me parecer habituado a prelecções. Trouxe o exemplo dum índio levado para a Europa e a quem é dito tapar a sua inapropriada nudez; mas o europeu, chegado ao continente do índio, não se despe. Parece-me ter colocado a questão: o que são os valores humanos universais? Deve-se primeiro escutar o estrangeiro antes de lhe ditar opiniões.
A Mãe: Fatumata Djau Baldé; orgulhosa mãe da Adiato; envergando um traje guineense, colorido, amarelo; sentada connosco; não se inibia de pedir o microfone e intervir respondendo às nossas questões. A Fatumata é presidente do Comité Nacional para o Abandono de Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança; e contou a sua história: prometida em casamento pela família, decidiu, chegada a altura, não casar. Apesar desse esse ser um direito da mulher, defendido no Alcorão, os compromissos já assumidos pelo pai pesaram para forçar o casamento. Fatumanta, então, fugiu de casa. Com muita coragem continuou a estudar e um dia regressou, mais forte, mais consciente dos seus direitos. Hoje, Fatumada defende a educação como uma das maiores armas para melhorar a condição das jovens e mulheres no pais. A prática da Mutilação Genital Feminina está a ser penalizada nos tribunais, e a denuncia está a vir das meninas escolarizadas que, quando puxadas para o "fanado" (com 6 anos), dizem não! Paradoxalmente, é cá em Portugal, no interior da comunidade imigrante, que é mais difícil abordar o tema. Mereceu o aplauso!
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| A mãe Fatumata, a Catarina, e o Professor Malam Djassi |










