quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A II Conferência da Corações com Coroa



Quando saí do elevador, no quinto andar do edifício do Museu do Oriente, a Catarina Furtado seguia em paralelo comigo na direcção da outra porta do Salão Macau. Não passou desapercebida pelo canto do meu olho: uma mulher bonita, num vestido do Nuno Baltazar, dum marcante cor-de-rosa. Gritei: “Catarina!”... Não, não foi isso que aconteceu; não cruzamos olhares e eu deixei os cumprimentos para mais tarde; só depois dela prometer não me morder: “Anda cá, que eu não mordo!” Seguido de: “Preciso dum café!”

No dia 15 de Outubro de 2013, realizou-se a segunda Conferência da Corações com Coroa, num espaço mais pequeno que a primeira, numa sala com janelas sobre a Doca de Alcântara. As cadeiras foram quase insuficientes para as pessoas que, desde as 14:30, quiseram assistir e participar no debate sobre “Como se Esconde a Desigualdade em Portugal”.

Com as palavras do anfitrião Carlos Monjardino, o Presidente da Fundação Oriente, a conferência teve o seu inicio: “Uma longa viagem começa com um pequeno passo” (proverbio chinês). Os passos seguros que a Catarina contou na descrição que fez da actividade da associação no seu primeiro ano. A viagem longa na direcção da igualdade de género e da promoção da mulher. Mais certo do que eu recontar o que ela disse, é visitar o renovado site da CCC; mas destaco o visível contentamento da Catarina com o anuncio da atribuição de duas bolsas de estudo, a duas meninas, no presente ano lectivo.

Sempre apoiada pelos voluntários da CCC (a quem agradeceu mais que uma vez) coube à Catarina a condução de toda a conferência. Às 15 horas sentaram-se na mesa os criadores para debater “A desigualdade na igualdade”. A Catarina Ricci, realizadora, é autora do documentário “Women on Women” (um projecto em curso do qual a Catarina Furado é embaixadora) sobre outras mulheres realizadoras que usam o cinema como instrumento para a mudança. Central na sua apresentação foi a sua estória com a realizadora Turca Handan Ipekçi que abordou os “crimes de honra” no seu país (no tempo em que escrevo isto ainda não sei o que são crimes de honra; a Ricci recomendou que pesquisássemos, e eu recomendo-vos o mesmo.) Contou as suas dificuldades em fazer-se respeitar por uma equipa de filmagem turca, maioritariamente masculina.

Seguiu, no uso da palavra, a escritora Patrícia Reis. O seu último livro é uma biografia da Simone de Oliveira. Peço emprestadas as frases que, mais tarde, Joaquim Furtado disse; a Simone foi mulher num tempo em que precisava de “autorização do país para sair do marido; e autorização do marido para sair do país.” O papel da mulher, o que mudou e o que é esperado dela, pareceu-me ser um assunto transversal ao debate. Elas conquistaram muito, eles mudaram pouco. Foi nisso que o humorista Nuno Markl pegou; falando do seu quotidiano ao lado da companheira Ana Galvão. A mulher, que está cada vez mais participativa no mercado de trabalho, mantém e não quer abandonar o seu lado mais afectivo, familiar e doméstico. Exige-se que o homem assuma iguais funções no lar. Quando a Ana grita do topo das escadas: “Nuno, ajuda-me a deitar o nosso filho!” - ele, sentado em frente ao computador, responde, aflito com a imposição duma dupla tarefa: “Não posso! Estou a escrever sobre igualdade de género!”

Foi, sem duvida, a mesa mais bem disposta e interessante do dia. Seguiu-se a palavra da Academia, dos investigadores e da aparente certeza dos números; com o objectivo de tornar claro o obscuro, de descobrir a desigualdade de género no mercado de trabalho. Mas os números não parecem trazer nada de surpreendente e de novo: as mulheres conseguem graus mais elevados de formação mas não chegam aos cargos de chefia; são elas que secundarizam a carreira quando têm filhos; são elas que mais recorrem ao trabalho a tempo parcial; mas, no presente momento de crise, são os homens que atingem uma taxa maior de desemprego.

No meu ver, a Professora Sara Falcão Casaca e o investigador Bernardo Soares Coelho não conseguiram transpor o estilo de apresentação académico, com os seus diapositivos de tabelas e gráficos, para um estilo mais apelativo e adequado a um público leigo. Mas, ressalvando que não estavam habituados a tal, agradeceram a oportunidade de expor as suas ideias perante uma plateia diversa.

19 horas; a noite caía sobre Lisboa, e a Catarina Furtado deu o seu lugar à Ana Magalhães para a condução da primeira entrega do Prémio Corações Capazes de Construir. A imprensa invadiu a sala e ocupou os espaços entre as cadeiras. Após o relampejar dos flashs, a Catarina ocupou o primeiro lugar em frente à mesa onde se sentavam os cinco membros do júri, presidido jornalista Joaquim Furtado, pai da Catarina.

Vale a pena ler a excelente introdução feita pelo Joaquim Furtado (se ficar disponível); com uma voz grave de locutor de rádio, que preencheu a sala, falou do ser jornalista, das suas funções e dos seus deveres na defesa dos direitos humanos; justificou a atribuição do prémio.

Antes, todos membros do júri tomaram a palavra. A representante da SONAE/MC Ana Salgado, anunciou que no próximo ano o prémio voltará a ser atribuído. Em 2014 haverá também a categoria “campanha” ao lado da categoria “jornalismo” (imiscíveis segundo o Joaquim Furtado).

E os prémios foram para...

Duas menções honrosas para o jornal Região de Leiria e para a edição anual da revista Visão Solidária.

(Neste momento
a Catarina pulou para o pódio para mostrar uma curiosidade no troféu: um pin destacável da Corações com Coroa; que colocou na lapela da premiada.)

Dois segundos lugares: um para a reportagem "Momentos de Mudança" recebido pela jornalista da SIC Cândida Pinto; e outro para a reportagem "Selecção de Esperanças" recebido pela jornalista da RTP Mafalda Gameiro.

A distinção, com o primeiro lugar, foi para a reportagem "
Um Dia Vou Ser Português" da autoria da jornalista Susana André. A peça, da série "Grande Reportagem" da SIC, conta a história de três africanos que encontraram abrigo no Centro de Acolhimento para Refugiados na Bobadela.

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